Alta do preço dos alimentos provoca protestos violentos em Moçambique egreve na Índia, trazendo de volta o medo de uma crise como a de 2007
Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA - O Estado de S.Paulo
Apesar de 2010 estar caminhando para ter a terceira maior safra degrãos da história, a ONU apela para que o mundo se prepare para umanova crise alimentar, incremente a produção nos países mais pobres eenfrente a especulação com commodities.
O alerta foi feito ontem pelo relator especial das Nações Unidas para oDireito à Alimentação, Olivier De Schutter, depois de protestos empaíses africanos e greves na Índia por causa da alta no preço dosalimentos. Para a ONU, essas manifestações devem servir para"despertar" os governos para o risco de uma nova crise, como a de 2007.
"Os países mais pobres estão altamente vulneráveis. Continuam adepender de suas rendas de exportação de um numero pequeno decommodities e, de outro lado, dependem da importação de alimentos, compreços cada vez mais altos e voláteis. Deixar de agir agora einaceitável", disse o relator.
Alta de preços. A FAO constatou que os preços de alimentos tiveram umaalta de 5%, apenas no mês de agosto. Os valores ainda estão abaixo dosíndices de 2007. Mas os incêndios na Rússia, as chuvas no Paquistão e aseca em grande parte da Ásia Central obrigaram a FAO a rever para baixoa previsão de safra para 2010.
A ONU admite que o comportamento do governo da Rússia não ajudou. ARússia é o terceiro maior exportador de trigo do mundo. Mas decidiubanir qualquer venda ao exterior até 2011 para impedir a alta nospreços domésticos, depois que parte substancial de suas terras foramdestruídas por incêndios no verão.
A produção russa deve ser 38% inferior à do ano passado. Em agosto, ainflação teve sua maior alta em uma década. Depois de subir 5,5% emjulho, os preços de alimentos sofreram mais uma alta de 6,1% em agosto.Para o Banco Central russo, a seca e os incêndios devem ter um impactonos preços nos próximos 12 meses. O preço da farinha subiu 40% emapenas dois meses.
Especulação. Na ONU, De Shutter alerta que não são apenas os desastresnaturais que estão elevando os preços. "A inflação é exacerbada pelaespeculação que, pouco a pouco, consome a renda de famílias" acusou.
O número de protestos aumentou nos últimos dias. Em Moçambique, apopulação foi às ruas contra a alta de 30% no preço do pão. Dez pessoasacabaram mortas e 150 foram detidas. No Egito, os protestos também seproliferam.
Sindicatos realizaram ontem uma paralisação no leste e no sul da Índiapara protestar contra a alta nos preços de alimentos. Escolas eserviços públicos não funcionaram. A inflação na Índia é um dos temasmais polêmicos hoje do país, com taxas acima de 10%. O clima não temajudado e a safra acabou sendo menor do que se previa.
"Essa cólera da população era previsível", disse De Shutter. Osincidentes começam a se assemelhar aos protestos de 2007, quando omundo presenciou uma alta nos alimentos que fez com que a luta contra afome de toda uma década fosse revertida. A crise financeira em 2008 e2009 acabou provocando uma queda no preço das commodities. Mas asituação voltou a se agravar.
Produção. A FAO insiste que a produção mundial de cereais será aterceira maior da história. Mas temores da falta de abastecimentofizeram com que o preço do trigo subisse 75% em um ano.
O índice geral de preços de alimentos está em seu ponto mais alto desdesetembro de 2008. Os preços de milho estão em seu ponto mais alto desdemeados de 2009. Açúcar e soja também sobem.
A FAO realiza no dia 24 em Roma uma reunião para lidar com a situação.Mas tentando acalmar os mercados e evitar especulação, a FAO evitaclassificar a situação de crise. "Se dissermos que é uma crisealimentar, a situação se transformará rapidamente em crise alimentar",disse Abdolreza Abbassian, economista da FAO.
PARA LEMBRAR
Promessa de ricos na crise foi esquecida
Para a Organização das Nações Unidas (ONU), o problema é que aspromessas feitas em 2007 e 2008 não foram cumpridas pelos países ricos.No auge da crise, o presidente americano Barack Obama convenceu osdemais líderes do G-8 a anunciar um plano de US$ 15 bilhões para aajudar no desenvolvimento da agricultura no mundo. "Os doadores nãocumpriram sua promessa. A falta de vontade política e a perda de umsentido de urgência adiaram de forma inaceitável a tomada de medidaspara evitar futuras crises", afirmou Olivier De Schutter, da ONU. "Em2007, o mundo foi pego de surpresa. Desta vez, não há desculpas",completou.
